20 julho, 2006

Macaquinho de Imitação

Não dei conta do instante preciso em que o Fernando Pereira azeitou.
Ou será que foi sempre assim? Quando era puto, ver um tipo que imita tudo o que quer é alucinante. Aquilo era mágico e imaginávamos logo a quantidade de golpes que se podiam fazer se fossemos tão habilidosos, já que ser invisível e voar estavam mesmo fora de questão. Mas o pouco que faziamos era um grão de areia ao pé da fantástica capacidade de imitar personalidades, cantores, políticos, para além dos óbvios que quase toda a gente imita (Fernando Pessa, António Silva, José Hermano Saraiva). Lembro-me de alguém comentar que o Fernando Pereira era uma anomalia na evolução humana: algures na sua garganta, novas cordas vocais davam-lhe poderes que ninguém tinha. Recordo-me mesmo de ver um médico a tentar explicar o porquê da sua arte. O futuro parecia brilhante e todos falavam em Sigfried & Roy, Corperfield e Fernando Pereira. Acreditavamos que o mais difícil para ele era optar por Hollywood ou Las Vegas.
Mas, de repente, ou me distraí com alguma coisa durante uma década, ou o Fernando Pereira desapareceu mesmo. Desapareceu para voltar com gel, barbicha e pinta de gigolo em festa de casamento. A imitar as mesmas coisas, mas agora em formato Vaudeville, com bailarinas e tudo. O casino apanhou-o, a RTP foi atrás, e agora a coisa repete-se ad infinitum e ad nauseam. Já todos percebemos que a arte do Fernando Pereira mirrou para florescer uma cegueira pelo star system, versão light e bronzeada, entre a Figueira e o Estoril. Amanhã, na RTP1, às 22h30, há novamente um especial sobre as grandes vozes nos últimos 70 anos em Portugal. Quem suportar mais de 10 segundos daquilo que me diga alguma coisa.

05 abril, 2006

Homem desesperado

Esperar pela concretização da promessa da SIC em dar-nos as suas melhores séries todos os dias à meia-noite em ponto é tão inútil como esperar que seja desta que o Lux comece os concertos a horas. Há algo de muito intrínseco na cultura destas gentes em fazer-nos esperar, esperar, desesperar. Eles sabem que esperamos, e eles fazem-nos esperar ainda mais. Por mim, desligaria agora mesmo a minha televisão, num gesto de última vingança face a um opressor sem poder de retaliação, mas não tenho a caixinha electrónica das audiências cá em casa para que este gesto tenha algum significado. Portanto, deixa-me cá ver isto e deitar-me 32 minutos mais tarde do que o previsto.

12 fevereiro, 2006

Pfff...

Há alguns meses, o suplemento do jornal Público, O Inimigo Público, publicou um pequeno anúncio a recrutar novos estagiários para a equipa de escritores. Guardei o assunto na minha cabeça durante algumas semanas até que, no último dia do prazo, decidi concorrer. Com nome falso e sem fazer referência a algo que alguma vez tenha escrito. Total anonimato, para tentar perceber o que dali saía. Assumi o exercício como um desafio de escrita - escrever à Inimigo Público - e, confesso, esperei que o meu esforço fosse avaliado positivamente. Provavelmente diria não a um convite, porque a minha vida profissional não o permite, mas sentir-me-ia lisonjeado se mo pedissem e, como numa cena famosa em que Charlie Chaplin vai insistindo em pagar a refeição sem ter dinheiro, iria recusando o convite sempre perante a insistência do Nuno Artur Silva, o gajo que decide o que tem e o que não tem piada em Portugal. Ou seja, queria ganhar, mas apenas para que todos percebessem que eu sou melhor que os outros. Eu queria uma distinção pública, sem que me chateassem muito para isso. No final, ainda teria o supremo gosto de bater com a porta, nem que fosse para fazer uso de outra referência: a tal piada do clube ao qual não queremos pertencer.
Eis que esta sexta-feira, depois de muitos atrasos na escolha dos vencedores, o suplemento Inimigo Público divulga uma selecção de 30 - o porquê deste número ultrapassa-me por completo - e o meu 'alias' não fora um dos contemplados. Honestamente, senti uma grande injustiça; mas apenas durou 40 segundos até me lembrar que dali saem as pessoas que fizeram o primeiro Podcast vídeo português. Bastou recordar os quase trinta minutos que demorei a sacar a merda do "Horror Inominável" para voltar a sentir-me bem comigo próprio. Como poderia eu querer ser reconhecido por pessoas a quem, confesso, não consigo atribuir-lhes atributos acima da mediania? A grande família Artur Silva, Markl & Cia continua a esprair a sua dinastia por tudo o que mexe e a cada novo passo o rei vai perdendo mais uma peça de roupa. Cedi à curiosidade porque gosto, mesmo assim, de ver para poder julgar (excepto aquele programa com a Ana-olhem-bem-para-as-minhas-mamas-Lamy, que sei sempre que é mau), e ainda hoje tremo só de pensar em todos os mentecaptos que poderão achar piada a algo tão inacreditavelmente vazio. Mas, escavando no vácuo, lá consigo fazer uma lista destes piores dois minutos da idade adulta do home video, com o apropriado título "Horror Inominável":

tempo total: 2 minutos;
cena de diálogo inicial quase imperceptível (má captação de som);
ideia básica e vulgar;
ao 1m42' acaba, dando lugar ao logotipo da coisa e contacto e-mail;
a 15 segundos do final ainda há uma cena do próximo vídeo que, percebe-se, também não irá ter piadinha nenhuma.


Seria normal acharmos que dois criativos(?) da casa PF aproveitassem o formato livre do vídeo amador para terem ideias um pouco diferentes do habitual, já que aqui não têm qualquer pressão de objectivos, públicos ou produtores. Mas parece que todos os dias tenho mais razões para menosprezar tudo o que saia com o carimbo das Produções Fictícias - invariavelmente são sempre aproveitamentos de ideias já feitas e que acabam por ser pessimamente executadas. Como uma praga, eles multiplicam-se, e já não se consegue pegar num livro de humor numa livraria sem ter o carimbo PF, ir a uma sala de teatro sem ver a chancela PF, ligar a tv sem vermos o guru Artur Silva ou um dos seus lacaios. Fica aqui o link e avaliem vocês!

07 fevereiro, 2006

K2:

Aí está novamente o João Garcia, mutilado pelas suas ambições, mostrando as chagas que um deus com minúscula lhe deu por ter desafiado os limites. O MillenniumBCP também aceitou o desafio e colocou o único, perdão, o mais famoso alpinista português a dar a cara - ou o que resta dela - num plano de marketing que tentará levar o banco até ao cume de qualquer coisa. Quem viu o filme "Bob Roberts", de Tim Robbins, lembrar-se-á, por certo, do modo como o heroísmo populista aparece sempre com base na vitimização. No entanto, o que me faz confusão nisto tudo é condecorarmos, outra vez, um pobre e esforçado português que se pôs em bicos de pés lá por fora. E neste caso é ainda mais triste, já que João Garcia conseguiu os seus objectivos à custa de umas quantas amputações - que o impedem, por exemplo, de voltar a colocar-se em bicos de pés. Quero dizer, conseguir chegar ao cume de uma montanha sofrendo deformações que, provavelmente, tiveram origem na sua falta de raciocínio, preparação ou estofo durante a escalada é, para mim, morrer na praia - mesmo que a analogia seja pouco propícia para este caso. Não só ficamos todos orgulhosos do senhor, que fez aquilo que os outros fazem, como ficamos com pena. Tal como o pai do satélite português (por onde andam, já agora - pai e filho?), o João Garcia não precisa fazer mais nada na vida - a numismática trata de perpetuar a imagem, e o culto urbano do mito trata do resto. Respeito o individuo, mas... o alpinista não ficou muito bem na fotografia. Até porque... bom, adiante.
E como deus é grande, apesar da minúscula, eis que uma notícia televisiva, que passa no Magazine do segundo canal da RTP, me serve para o final deste texto. O programa abre com uma reportagem e entrevista a Edgar Alberto. Sim, Edgar Alberto. Um jovem... português... que estava em Londres à procura de trabalho e conseguiu ser assistente de iluminação no "Corpse Bride". Em cerca de metade da rodagem. Há tempo para uma pequena entrevista, mas a voz off revela dois pormenores importantes: Edgar Alberto nunca falou com Tim Burton (mas cruzou-se com ele várias vezes) e houve a feliz coincidência de o filme ter estreado em Londres no mesmo fim de semana do seu aniversário. Bravo, Edgar! Depois de Joaquim Almeida, Rosa Castro André, Eduardo Serra e o tal português que há uns anos fez umas máquinas importantes para filmar ou assim, estou contente por termos tamanha importância no cinema mundial. Mas ficariamos mais gratos ainda se durante a rodagem, e seguindo a analogia com o João Garcia, Edgar Alberto tivesse ficado cego. Deus queira que não (aqui com maiúscula pois a ortografia assim o obriga, embora o deus seja o mesmo), porque já se viu que Edgar Alberto tem a carreira toda feita. Ele e o gajo que decide os óptimos conteúdos do Magazine 2:.

23 janeiro, 2006

Aqui JAS

Não deve haver muitos blogs que não tenham escrito já sobre o ex-director do Expresso, José António Saraiva. Esse foi talvez um dos motivos que me levou a que nunca o tivesse feito antes aqui - o Being José Mourinho é, entre muitas outras coisas, um blog que se distingue pela originalidade, pela diferença, pela coragem de criticar, pela qualidade de escrita e, já agora, pela extrema modéstia do seu autor. Mas a falta de assunto e a necessidade de arrumar este tópico de vez obrigou-me a falar neste senhor, que é, ele mesmo, o oposto deste blog: através de editoriais que versavam temas da actualidade, escreveu sempre, enquanto director daquele semanário, de uma forma absolutamente primária, com ideias elementares, recorrendo sempre a frases o mais curtas possível e a um vocabulário simples e básico, para que todos - desde o Presidente da República (o anterior e o novo) até ao Paulo Bento - o pudessem entender.

Agora que o distinto arquitecto deixou o posto de director do Expresso, JAS decidiu que era tempo de pôr de parte quaisquer tipos de espartilhos que, de alguma forma, pareciam tolher o seu discurso, para, como um simples cronista barra observador, poder, finalmente, dissertar sobre os mais variados temas: política, cinema, literatura, futebol, economia, etc, etc, etc. Desconheço se é uma espécie de atributo dos arquitectos, mas a verdade é que, também com José António Saraiva, cabe tudo lá dentro.
Na crónica do dia 14 de Janeiro, JAS escreveu três parágrafos sobre a campanha para as presidenciais, para dizer aquilo que já toda a gente havia dito antes e por mais do que uma vez. De resto, é precisamente isso que ele faz, dizendo várias vezes a mesma coisa, apenas utilizando títulos diferentes, para que o leitor não perceba que se está a repetir. Em Campanha 1 escreve: "Mas não estará o povo farto de palavras e desejoso de políticos que façam mais e falem menos?". Em Campanha 2: "(...) criticaram Mário Soares por ter como único objectivo criticar Cavaco Silva". E com o título Alegre (porque Campanha 3 não faria, obviamente, qualquer sentido): "Cavaco e Alegre são os que não atacam ninguém" e "os três mais mal posicionados são os que passam os dias a verberar os outros".

Mas há mais: para além de um artigo onde disserta sobre Cultura e Eduardo Prado Coelho (tentando mostrar que os extremos se tocam, ao contrário dos extremos do próprio Eduardo Prado Coelho), há ainda outro, com que, por sinal, inicia a sua crónica, sobre José Mourinho. Em meia dúzia de linhas apenas, JAS desvenda-nos o segredo do sucesso do treinador português, algo que todos já fizeram há mais de um ano (só agora deve ter ido ao BPI levantar o seu aumento de ordenado), apresentando, para o efeito, factos que sustentam, sem margem para dúvidas, a sua argumentação: esclarece, em primeiro lugar, que Mourinho é um homem extremamente organizado (obrigado, ainda não tínhamos percebido isso), chama-nos a atenção para o facto de o Chelsea não ter ao seu dispor estrelas de renome internacional (Lampard, Joe Cole, Ricardo Carvalho, Petr Cech, Didier Drogba, John Terry, Makelele...), como têm, por exemplo, Arsenal e Manchester, e faz-nos ver, então, que estes factores constituíram os alicerces que permitiram ao Chelsea, sob o comando de Mourinho, vencer o campeonato de Inglaterra, algo que, na história do clube, não acontecia - e passo a citar - "há quase 20 anos".
Não há dúvidas: o homem sabe do que fala.
Ponto final.
Parágrafo.

29 dezembro, 2005

Louisiana

Sempre gostei da televisão que me mostrasse conversas, mesas redondas e debates. A imagem acrescenta muito a uma conversa, embora o que conta seja o que ouvimos e pouco o que vemos. Estranhamente, se lá fora grande parte dos destaques na imprensa são quase sempre entrevistas, cá é o oposto. É bem mais fácil inventar umas coisas do que ter que fabricar uma conversa com alguém. É com base nesse risco que programas como as conversas da Ana Sousa Dias no segundo canal do estado já convenceram muita gente da suas qualidades. É um exemplo, único, um caso raro de intimidade, inteligência e bons momentos de conversa interessante, dizem. Eu acho o contrário: o programa é uma trampa porque a Ana Sousa Dias não tem jeito nenhum para aquilo. No mais recente exemplo, em "conversa" com Ricardo Araújo Pereira, a entrevistadora falhou em tudo o que poderia falhar: fez perguntas óbvias, e que já foram feitas vezes sem conta; nunca aproveitou as ideias do entrevistado; interrompeu pensamentos; vagueou sobre assuntos; nunca construiu uma... conversa. Ao contrário, facilmente se distrai nos temas onde se sente à vontade (mais mundanos e básicos), faz excessivos comentários desinteressantes (interrompendo quase sempre o ritmo do convidado), e percebe-se facilmente que as perguntas aparecem por preparação, e nunca ao sabor das respostas. Talvez tenha sido por tamanha ausência de qualidades que Ana Sousa Dias foi convidada para espelho no programa de Marcelo Rebelo de Sousa - por uma razão estranha, ainda acham que o professor não pode estar sozinho em frente à camera e acabaram por colocar a senhora ao seu lado para dizer olá e boa noite por todos nós. Tal como já se tinha visto com Paul Auster (poderia lá ela perder esta oportunidade), a boa vontade não chega. Mas... o que se pode fazer neste país? A senhora faz aquelas figuras na televisão e é já uma estrela na arte de bem entrevistar.

Dias antes, também nesse ilustre canal que bem tenta ser exemplar (e, não por acaso, nunca o é à custa do produto nacional), outro tipo com ideias sobe a escada do sucesso. Luís Filipe Borges é o novo menino das conversas na tv. Veio do nada - ou dos Açores, já não sei bem -, muito provavelmente não lhe foi feito nenhum teste, e por lá tem ficado. Se a brilhante sitcom americana Arrested Development foi suspensa por ter apenas 4 milhões de espectadores nos Estados Unidos, tentem imaginar as implicações na vida pessoal do apresentador da Revolta dos Pastéis de Nata se ele por lá tentasse executar o seu plano. Como não me apetece repetir o que escrevi acima sobre a Ana Sousa Dias, apenas acrescento agora que a piadinha não ajuda nada a salvar o coiro quando todos percebem que uma conversa em directo com duas pessoas está desgovernada. Carregado de tiques (que nem são dele) e uma manifesta falta de vontade em elaborar uma conversa com princípios, meios e fins, Luís Filipe Borges socorre-se daquilo que supostamente é o seu habitat natural: a escrita humorística. Mas, para isto ser também verdade, o sketch apresentado no último programa nunca deveria ter existido num estado de direito: para ilustrar um provérbio conhecido, vê-se um médico a discursar para uma plateia de mais médicos e, entre uma oratória aparentemente normal, o médico que discursa começa a ter uns trejeitos como se fossem espasmos. O mesmo acontece com os médicos da plateia. O adágio era, como qualquer ser humano com mais de 3 anos percebe, "de médico e de louco todo temos um pouco". Aceitaria com algum desconforto que o grupo de génios que trabalham nestes Pastéis pagassem para ter o programa, caso contrário, prefiro nem saber, OK?

04 dezembro, 2005

Orchestral Manoeuvres In The Dark

Nada a fazer: nesta altura, centenas de bloggers e cronistas preparam os textos sobre a decisão da Organização Mundial de Saúde (OMS) em não aceitar nos seus quadros trabalhadores fumadores. Depois de uma raríssima pausa no combate a todos os argumentos anti-tabagistas (aproveitada, provavelmente, para fumar um cigarro ou um charuto), Miguel Sousa Tavares, Francisco José Viegas ou João Gobern irão cumprir aquilo que todos esperam: mais um ataque aos demónios que os impedem de fumar ao pé das narinas de todos os cidadãos do mundo. Para não variar, irão dizer que é uma vitória do falso moralismo, dos lobbies, que é injusto, inapropriado, e que pessoas do calibre deles deviam fazer o que bem lhes apetece. Eu, sinceramente, também acho. Sobretudo, se o fizerem longe de mim. Caso contrário, sugiro que sempre que alguém, como eu, não fumador (oh, infame!), esteja perto dos três ilustres bon vivants que referi (e os pró-tabagistas são sempre bon vivants, não há volta a dar) soltem um sonoro e reverberativo peido. Com ou sem preparo e aviso, demonstrem o prazer no alívio intestinal de um modo categórico, sem a preocupação de ver quem foram os atingidos. Nos maus dias de trabalho digestivo, o cheiro irá incomodar tanto quanto as baforadas de umas dezenas de cigarros, mas - e isto é muito importante - sempre podemos garantir aos liberais do fumo que, até hoje, ninguém provou a existência de cancro pela inalação contínua de manifestações flatulentas.

17 novembro, 2005

PSI Miami Vice Goes Nasdaq Racing

Durante anos arrependi-me de ter desgravado as minhas cassetes vídeo que compilavam os telediscos da minha adolescência. Foi, no entanto, um arrependimento que apenas durou o tempo exacto até perceber que havia um canal na TV Cabo que se chamava VH1 e que desvendava tudo aquilo que me custara tanto a seleccionar. Todos aqueles vídeoclips que pareciam fazer parte da minha história estão, afinal, expostos a toda a gente, embora, uma vez ou outra, ainda sinta saudades das palhaçadas do Nino Firetto, no Music Box, e sobretudo do Countdown, apresentado pelo grande Adam Curry, excepto quando me aparecia, aos gritos, a anunciar "Sheila E. on stage, everybody!"
Agora é a RTP Memória que tem ajudado a demolir a minha Recordação, ao passar uma série de programas que, para nossa melhor convivência colectiva, seria melhor que permanecessem escondidos no fundo do nosso inconsciente. Mas é assim - hoje o revivalismo parece não ter limites e tudo está disponível e permanentemente visível.
Tudo? Nem tanto. Lembro-me de há uns bons 20 anos haver um bloco informativo após o telejornal e o boletim meteorológico que nos contava como tinha sido o dia na bolsa de Lisboa. Durava uma eternidade - ou mais - e parecia não ter fim; durava o tempo necessário para anotarmos todas as empresas cotadas, a sua variação em relação ao dia anterior e o seu índice, e dava ainda para lermos tudo em voz alta e emendarmos possíveis erros de anotação. Até aparecer a página seguinte, ainda podiamos assobiar o tema musical (e que tema!) que todos os dias rodava em loop pela casa, pós-jantar. Finda a refeição, era a altura em que os mais desatentos à economia de Portugal e às maravilhas de Cavaco Silva aproveitavam para levantar a mesa, fazer o seu xixi e ajeitar a almofada para ver o Roque Santeiro.
Foi o início da minha grande inimizade com a merda da informação bolsista - a flutuação das bolsas de Paris, Nova Iorque, Frankfurt ou Londres inundou a minha vida e, sem perceber bem porquê, existe, desde essa altura, um pequeno grupo profissional que insiste em fazer ver à restante população que esta informação é crucial para o seu dia-a-dia. Para que serve sabermos que a Altri esteve novamente em alta? Ou que a Somapa registou uma queda de 0,93%? Ou que a Mota-Engil registou a maior descida do dia? Aqueles que precisam desta informação estarão decerto esclarecidos à hora de jantar (ou à meia-noite, como é o caso actual do programa do segundo canal). Havendo toda esta fixação pela Economia, esta deveria ser tratada como algo verdadeiramente importante, e não como rodapé inútil e poluente, porque, no final do dia, apenas sabemos o índice Nikei, o valor do Brent, a variação de Lisboa... e nada mais. De manhã, ainda mais clara é a sua irrelevância, com os seus directos aos analistas misturados contra-natura com o trânsito e o tempo. É disso que precisamos antes de sair de casa? O tempo que faz, o trânsito na A5 e a tendência das bolsas internacionais? Entre a saída apressada de casa e a entrega dos putos na escola, não vejo como esta informação possa ser relevante para a esmagadora maioria da população. E no entanto, a porra do PSI não-sei-quantos aparece-nos à frente quando saimos de casa e ainda lá está quando regressamos.
O grande triunfo da Economia e da Globalização foi terem convencido toda a gente que eram importantes e, sobretudo, determinantes. As televisões, não estranhamente, ficaram convencidas disso e resolveram incluir mais este lixo no meio da sua espantosa falta de habilidade em comunicar-nos o Mundo que nos rodeia.

02 novembro, 2005

Outros Que Agora Não Me Lembro

Hoje saiu mais um Independente para as bancas, o que significa que ainda não foi desta que acabou (e, tal como o Semanário, ninguém ainda percebeu porquê). Recentemente, colou-se a mim aquela nostalgia do tempo em que o Independente era um jornal que dava gosto ler. Eram os tempos das primeiras-páginas com notícias bombásticas que a maior parte das pessoas acreditava serem verdadeiras, dos títulos imaginativos e com trocadilhos-graçola bem feitos, dos editoriais pujantes e das crónicas (bem) escritas por colunistas com categoria; eram os tempos do MEC, do VPV e de OQANML. Enfim, foram duas semanas fantásticas que deixaram muitas saudades a quem gosta de jornalismo de qualidade. Hoje, o Independente, sob a auçada da Inês Serra Uopes, é um jornal insípido, chato, ressabiado por nunca ter vendido mais que uma fatia fininha da tiragem do Expresso e, neste novo século, é um semanário absolutamente desnecessário. Numa palavra: é o Abrupto.
Por isso, ultimamente, e à falta de melhor oferta (o Destak e o Metro são diários), tenho alternado a minha leitura semanal com as Revistas Sábado e Visão. Mas não por muito mais tempo. Eis um excerto do editorial de há duas ou três semanas, da Sábado:
Jerónimo de Sousa é um candidato simpático. E essa é a característica mais perigosa de todas. No meio dos sorrisos, das festinhas às crianças, das danças do vira e das beijocas às velhinhas, vai defendendo o marxismo, o fim desta União Europeia, o combate à venda das empresas portuguesas a estrangeiros ou a aposta prioritária na agricultura e na pesca. É esse o País que o PCP quer - um país rural, atrasado e isolado, sem acesso à cultura nem à informação. É essa a aposta deles para vencer.
E no último número da Visão, que conta nos seus quadros com colunistas tão entusiasmantes como o Boaventura Sousa Santos, o José Saramago ou o António Mega Ferreira, pode ler-se na crónica deste último:
Um dia qualquer de 1991, o prefeito de Nitéroi, a «outra banda» do Rio de Janeiro, convidou o arquitecto Oscar Niemeyer a visitar um lugar que ele tinha em mente para ali erguer um museu. (...) Niemeyer diz que a «solução aconteceu naturalmente»: viu imediatamente um edifício redondo «tendo como ponto de partida o apoio central inevitável». E a arquitectura, diz o Mestre, «decorreu espontaneamente como uma flor». (...) Leio as cartas de Niemeyer e Susskind sentado no terraço de um hotel em Ipanema, rodeado por morros, de frente para o mar. É isso: foi o Rio de Janeiro que ungiu Niemeyer e lhe deu a graça de fazer desabrochar aquele flor em Niterói.
Ou seja, uma publicação é dirigida por gente com um discurso de tal forma conservador e fanático, que, tenho a certeza, faria corar de vergonha o mais reaccionário dos reaccionários, como o Paulo Pinto Mascarenhas (bem, e daí...); a outra apenas serve para provar, a quem ainda tinha dúvidas, que anos de convívio íntimo com a Clara Pinto Correia podem causar danos irreversíveis numa pessoa.
O que sobra, então? Pouco, muito pouco. Talvez a TV 7 Dias, que, esta semana, me conta tudo o que eu preciso saber sobre as depressões e os problemas com o álcool sofridos pela Valentina Torres, abordando uma antiga relação amorosa entre a ex-apresentadora e José Cid, para nos brindar, ainda, com uma das célebres fotos do cantor, todo nú, apenas coberto por um dos seus inúmeros (e merecidos) discos de ouro, numa época em que, graças a Deus, o CD ainda não ocupara o lugar do Vinil.

26 outubro, 2005

A Odete Santos É Que É

Hoje, em Belém, vi um outdoor gigantesco que publicitava o novo disco de Kátia Guerreiro, a cantora que é a mandatária para a juventude da candidatura de Cavaco Silva. O disco, ao que sei, nem sequer é novo, e esta publicidade é apenas uma forma de aproveitar as novas funções da fadista. Não me choca e tão pouco me interessa. A bem dizer, é um assunto tão estimulante quanto o candidato que a cantora apoia. O que me chocou foi a resposta de uma amiga ao comentário que eu fiz a propósito dos atributos físicos da Kátia.
Nunca conheci - e dúvido que alguma vez venha a conhecer - uma mulher que à pergunta simples e directa "Não achas aquela mulher linda?" não me responda com um "Sim, mas...". Não há nenhuma. E «nenhuma», neste caso, não é exagero ou força de expressão, tipo «duas ou três», como quando me perguntam, sei lá, "Quantas vezes já desejaste que a malta d' O Acidental fosse sodomizada por um grupo de jovens negros gay de extrema-esquerda que só estão cá para roubar os nossos empregos? - Hã... Nenhuma". Não. Nenhuma é mesmo nenhuma. Zero.
Para todas há sempre - sempre - um 'mas...'. Se uma mulher é considerada bonita pela generalidade dos homens, automaticamente ela passa a ter, aos olhos das outras mulheres, uma série de defeitos que só elas parecem conseguir descortinar.
A lista é infindável, mas estes são, assim por alto, os comentários que mais tenho ouvido:

A Angelina Jolie é gira mas tem uma boca muito grande;
A Laetitia Casta é querida mas tem os dentes tortos;
A Penélope Cruz não é feia mas é tão parola, coitada;
A Catarina Furtado até pode ser bonita mas é uma parva;
A Charlize Theron é linda mas há ali qualquer coisa...
A Giselle Bundchen é gira mas há modelos muito mais giras;
A Nicole Kidman já foi bonita mas aquelas plásticas...
A Michelle Pfeiffer é lindíssima mas é impossível que aquilo seja tudo natural;
A Julia Roberts é querida mas quando se ri estraga tudo;
A Monica Belucci é bonita mas é demasiado femme fatale;
A Sophie Marceau é interessante mas é muito apagadinha;
A Halle Berry é muito bonita mas ficava melhor com o cabelo curto;
A Joana Amaral Dias é girinha mas é muito baixinha;
A Cameron Diaz é engraçada mas tem uma pele horrível;
A Catherine Zeta Jones é gira mas está muito gorda;
A Demi Moore é gira mas está com corpo de homem;
A Liv Tyler é bonita mas é muito pálida;
A Meg Ryan é engraçada mas estragou-se com a idade;
A Isabel Figueira tem um corpo bonito mas é uma pindérica;

E não é só: para que não pensemos que se trata de inveja ou que não são capazes de elogiar uma mulher, fazem questão de realçar os atributos de outras que, não sendo tão bonitas, são "mais interessantes", têm "mais classe", são "mais simpáticas", "menos arrogantes" ou "não tão convencidas" - ou seja, são feias nas horas.

14 outubro, 2005

Histeria, s.f., do grego "histerum"

Nos 4 ou 5 anos que antecederam a sua morte, o meu avô repetia a frase "se eu pudesse.... era uma bomba em cima destes tipos" cada vez que se referia a alguém que o irritava especialmente. Embora não creia que alguma vez tenha concretizado os seus intentos, a verdade é que a figura do meu avô teve uma forte influência na formação do meu carácter, pelo que não me espantarei se, um dia destes, eu der comigo a pesquisar "How to make a bomb" no Google. Nesse dia - ou no dia seguinte, se os fios verdes e vermelhos ficarem trocados - as pessoas que ficam paradas no lado esquerdo das escadas rolantes, as que dizem "olha para a minha cara de preocupado" ou "e o que é que isso contribui para a minha felicidade?", todo o público do Preço Certo, o João Pereira Coutinho, os meus supostos amigos que me garantiram ser possível um homem fazer sexo oral a si próprio, e 98% (porque as generalizações são sempre perigosas) dos jornalistas desportivos desejarão não ter saído à rua.
Falando de jornais desportivos, ontem a grande notícia, para além das operações a Nesta e a Damien Duff - foram um sucesso -, era a não qualificação da Grécia para o Mundial de 2006 na Alemanha: "Selecção Grega afastada do Mundial!", "Grécia fica de fora!", "Gregos falham qualificação!", "Gregos são cães imundos e merecem morrer!" (esta não vi em lado nenhum mas cheira-me que chegou a estar escrita antes da revisão final). Ora, para quem ainda não percebeu, todo este histerismo à volta do afastamento da Selecção Grega do Mundial da Alemanha é perfeitamente ridículo e idiota. E é-o por três motivos: em primeiro lugar porque se trata da forma mais ressabiada possível de demonstrar que, sabe-se lá porquê, ainda não nos esquecemos da derrota sofrida na final do Euro 2004. Mais de um ano após esse jogo (bem) ganho pelos Gregos, festejamos que nem uns palermas o não apuramento da Selecção Grega, e damos, assim, uma imagem de povo neurótico que nunca esquece quem supostamente nos "fez mal" - por isso ainda hoje pensamos em ajustar contas com os franceses que nos venceram no Euro 2000 com um penalty tão desnecessário quanto a figura de quem o cometeu, ou no árbitro Marc Batta que, por ter expulso Rui Costa frente à Alemanha, continua, passados 8(!) anos, a ser considerado o responsável pela não qualificação de Portugal para o Mundial de 98. Não só não sabemos perder como, quando ganhamos, fazemos questão de vibrar como uns patetas com as derrotas dos nossos rivais. Em segundo lugar, porque ao nos regojizarmos desta forma com o afastamento da Selecção que nos venceu no Euro 2004, não estamos a fazer mais do que diminuirmo-nos a nós próprios: se a Grécia, ao que parece, não vale, afinal, um chavo, então o que dizer de Portugal que perdeu - duas vezes - com eles? Não seria melhor a Grécia ter-se qualificado e fazer boa figura, para que justifique, cada vez mais, o título europeu que conquistou à nossa custa? Finalmente - e falo do terceiro motivo -, porque, sendo um sentimento partilhado pela generalidade dos jornalistas desportivos, o qualifica automaticamente como idiota.
A verdadeira alegria é que um dos nossos papões foi eliminado, abrindo as portas ao próximo carrasco da nossa felicidade. Dentro de alguns meses, teremos que encontrar um outro culpado pelos nossos falhanços, que, se Deus quiser, não será nem o Togo nem, novamente, os Estados Unidos. Possivelmente, será o Ricardo, ou então o próprio Mourinho, que por não ter na equipa do Chelsea metade dos nossos seleccionáveis, não lhes pode explicar como se ganha um Campeonato do Mundo.

11 outubro, 2005

Onda Choque

Passadas que estão mais de 24 horas após a longa noite eleitoral de domingo, posso finalmente fazer o meu balanço das Eleições Autárquicas 2005. Comprei todos os jornais diários, li os mais variados artigos de opinião, vi os noticiários dos diferentes canais de televisão, escutei analistas de todas as esferas políticas, percorri dezenas e dezenas de blogs - de direita, de esquerda e até alguns desportivos -, ouvi atentamente os discursos dos vencedores e dos vencidos, analisei cuidadosa e detalhadamente - distrito por distrito, concelho a concelho - os resultados finais, dando-me inclusive ao trabalho de os comparar com as previsões que haviam sido feitas nas semanas anteriores ao dia das eleições, e estou então em condições de afirmar que, neste momento, já não há ninguém que não tenha feito o trocadilho, fácil e sem graça, com a expressão "choque tecnológico", a propósito do problema informático nos serviços técnicos do STAPE, que deveria ter processado os resultados das eleições autárquicas e sua consequente divulgação. Repito: ninguém.

04 outubro, 2005

Elena Mirò

As Caraíbas têm o triângulo, a Amadora tem a Cova da Moura, e Lisboa possui, bem no centro da capital, o Parque Eduardo VII. Procurando bem, todas as cidades, locais ou zonas geograficamente delimitadas têm um local mágico, sobrenatural, com leis próprias, desafiando as regras que existem na sua periferia. Em Lisboa, enquanto não encontramos um portal de acesso ao passado e futuro, esse local é o Parque Eduardo VII. Quem não conhece por nunca ter visitado ou por não morar cá, apenas sabe que o jardim é um local de prostituição masculina. Mas este ecossistema esconde outros encantos: o pavilhão Carlos Lopes (que há anos acompanha literalmente a condição física do atleta), o restaurante Botequim Do Rei (desconhece-se se os patos do seu lago servem a ementa), e as Estufas quente e fria (não simultaneamente, como o gelado). Em Junho, ainda recebe a(s) barraca(s) da Feira Do Livro de Lisboa.
No topo do Parque, encimado por duas colunas ditatoriais inauguradas pelos estrangeiros Eduardo VII e Isabel II, esconde-se - à vista de todos - o enigmático segredo do Jardim. Como um buraco negro cósmico que suga toda a matéria, também o cume do jardim destrói todas as noções de geometria cartesiana que conhecemos. Urbanistas, arquitectos, engenheiros, arquitectos paisagistas, artistas, autarcas, ninguém consegue implementar ou construir o que quer que seja naquele espaço. Todos os planos, maquetes ou ideias são imediatamente devassados pela capacidade do Jardim em distorcer eixos ortogonais, rebater planos, cruzar paralelas, anular pontos de charneiras e, sobretudo, alterar as escalas. Veja-se o que fizeram, por exemplo, ao monumento ao 25 de Abril do Cutileiro - vendo o estado em que aquilo está, ninguém acredita que os pedragulhos fálicos, quando ainda na maquete e no seu atelier, tinham algum interesse artístico. E quem não se recorda da suposta roda giratória gigante? Estava capaz de jurar que era do tamanho da de Londres, antes de ter ido parar (literalmente, porque nunca chegou a girar) àquele lugar.
Agora, num golpe caprichoso do poder sobrenatural daquele Jardim, uma bandeira nacional adquiriu dimensões épicas. O tamanho inesperado está já a provocar graves alterações, e a vários níveis: já mudou alguns ventos dominantes da zona, a sua sombra está a alterar o ecossistema da Estufa Quente, toda a zona sul da capital vive diariamente com reflexos alternados de vermelho e verde, e todos os alfacinhas vivem com medo de a bandeira se soltar e cobrir parte da baixa lisboeta. Mais: na eventualidade de um distinto político morrer, é quase certo que a bandeira a meia haste irá provocar o caos e a destruição em toda a zona envolvente do Parque Eduardo VII.

27 setembro, 2005

Acho Que Já Fiz Merda, Srª Enfermeira.

No dia 26 de Agosto de 2004, a cantora Laura Branigan faleceu vítima de um aneurisma. Esta notícia (chocante, diga-se) terá passado despercebida a muito boa gente, mas não a mim, que cresci a ouvir - e a dançar - temas como Gloria ou Self Control. Bem diferente é o destaque que, invariavelmente, é dado às operações efectuadas aos jogadores de futebol. A semana passada, por exemplo, após dias de amargura, ficámos a saber o resultado da operação cirúrgica ao Sokota, que se lesionara com gravidade no jogo de Glasgow. Sokota foi operado com sucesso! Os jornais deram a notícia, as televisões passaram a boa nova nos seus rodapés, a equipa médica, o jogador e a sua família estão de parabéns: Sokota foi operado com sucesso! Claro que também um sucesso haviam sido as operações ao Sá Pinto, ao Derlei, ao Nuno Valente, ao Beto, ao Cissé, ao Nuno Gomes, ao Robert Pires, ao Niculae, ao Ronaldo e a todos os jogadores de futebol que alguma vez passaram pelas mãos de um cirurgião. Todos menos o Mantorras.
O nível de sucesso das operações aos jogadores de futebol está, aparentemente, bem longe do que é obtido na remoção de um aneurisma cerebral, do transplante de um órgão de um dador ou da separação de siameses que partilham o torso. Mas ainda assim, todas as operações ao menisco, ao adutor, à rotura, ou outra maleita no campo desportivo vêm cá para fora com o inevitável rótulo de sucesso. A medicina é uma ciência que tenta ser exacta, e que sabemos que não é exacta, por isso, um dia, só para variar, sempre gostava de ler qualquer coisa como:
"Operação a Sokota foi um fracasso. Na sequência da lesão contraída no joelho, o avançado Sokota submeteu-se a uma operação que, infelizmente, não correu como era esperado. Apesar de a prática da artroscopia estar hoje bem estabelecida e ser bem conhecida de qualquer cirurgião ortopédico, a verdade é que, desta vez, e ao contrário do que é habitual nestas situações, a equipa médica fez um diagnóstico terapeutico errado que resultou no fracasso total da operação. Em vez de uma abordagem intra-articular dos meniscos pelas designadas vias antero-interna e antero-externa em relação à rotula, com incisões na pele e cápsula articular, o cirurgião-chefe optou, inexplicavelmente, por uma terceira via - interna - que provocou a deterioração das áreas de cartilagem meniscal e a impossibilidade da redefinição de um novo bordo interno para o menisco, que assim ficará totalmente deformado e sem soluções de continuidade. Este erro primário, digno de um aluno fraquinho do 1º ano de Medicina, impediu que os pequenos fragmentos daí resultantes tivessem sido expulsos para o exterior através da cânula de drenagem e arrastados pela corrente constante de irrigação, e, mais grave ainda, impediu que a lavagem intra-articular e a respectiva montagem dos circuitos de drenagem tivessem sido executadas devidamente. Com esta sucessão de asneiras, a remodelação do menisco, a limpeza de algumas irregularidades e a libertação do retináculo externo não chegaram sequer a ser efectuadas, temendo-se agora que o avançado croata tenha que viver com uma sonda de palpação, uma pinça de menisco e um bisturi definitivamente alojados no seu joelho. Na prática, isto significa que Sokota corre o risco de nunca mais poder jogar futebol, ver ambas as pernas amputadas ou, até, na pior das hipóteses, ter que regressar ao Benfica."

18 setembro, 2005

Querido: Enquanto Jogavas Squash Mudei A Casa

O canal People And Arts, da TV Cabo, passa um programa chamado Changing Rooms, em que dois pares de vizinhos trocam as chaves das suas casas, e, dispondo de um orçamento que não deverá ultrapassar as 500 libras, remodelam uma divisão das respectivas habitações. Qualquer assinante da TV Cabo já terá visto este programa pelo menos uma vez, nem que acidentalmente, tal a quantidade de repetições a que já foi sujeito - a apresentadora começou com o cabelo curto, depois comprido, já foi nova, ficou velha, e nova outra vez, engravidou, deu à luz e voltou a engravidar para dar novamente à luz a mesma criança.
A SIC-Mulher decidiu aproveitar a ideia e criou um formato em tudo semelhante, com o nome Querido: Mudei A Casa. Se na versão inglesa, tanto quanto me apercebi, a maioria dos participantes vive em casas modestas e recorre ao programa quase sempre por necessidade, no programa exibido pela SIC-Mulher os participantes são de uma estirpe completamente diferente: é a Inês, de 18 anos, a quem os pais acabaram de oferecer a sua primeira casa e gostava, sei lá, de remodelar o sótão para poder dar umas festas para as amigas e para os amigos; é o Tomás que vai ter (mais) um irmão - o Martim - e que precisa de um quartinho novo; é a esposa dedicada que decide fazer uma surpresa ao marido, remodelando uma das 9 divisões do apartamento que compraram na Alameda; etc., etc.
Nada proíbe, obviamente, os responsáveis da SIC-Mulher de darem ao programa a orientação que eles bem entendem mas, o que era, em Changing Rooms, mesmo que muito raramente, um programa de entretenimento semi-divertido, que resultava numa mistura de conselhos de decoração, boa disposição entre todos os envolvidos, e expectativa face à reacção perante o resultado final, transformou-se, na versão portuguesa, numa pastelice betonça em que todos - todos - os concorrentes parecem saídos de uma festa do T-Club, e onde o único critério para a sua participação no programa parece ser o de terem um apelido com mais de seis nomes. Patético e deprimente. Ou pattético e d' eprimente, assim é que é.
É apenas um programa, eu sei, mas demonstra inequivocamente o modo como a SIC vê um canal para mulheres. Nade de muito profundo porque há que ir buscar os filhos ao colégio alemão, nada de muito intelectual porque já basta a confusão das várias telenovelas da TVI para perceber quem anda a aldrabar quem, e sobretudo nada de muito elaborado porque há que pensar no jantar do próximo fim-de-semana com os Telles. A programação é feita para a mulher moderna, jovem e indepentente. Pena é que confundam moderna com o catálogo Ikea, jovem com ter filhos depois da saída da Católica, e independente com "eu decido sozinha o que faço para o jantar". Tudo leve, muito leve, sem qualquer criatividade. Está visto que até na decoração das suas casas as senhoras SIC-Mulher precisam de ajuda.